O capital talvez tenha pátria

A Alemanha que se recusa a reconhecer que a União Económica e Monetária (UEM) gera desequilíbrios que levam a choques assimétricos, que acredita que os seus excedentes comerciais resultam meramente da boa gestão e não se devem aos desequílibrios estruturais da UEM e à utilização de uma moeda subvalorizada, que insistiu na narrativa dos trabalhadores do norte da Europa vs. os preguiçosos do sul e que empurrou vários países para resgates financeiros que tinham entre os seus principais objectivos a privatização de empresas em sectores económicos estratégicos, vem agora queixar-se da influência que a China tem sobre os países europeus em que investiu. Mais do que irónico, é ilustrativo quanto baste da falta de visão da liderança merkeliana e de todos aqueles que sofrem do que Ulrich Beck denominou por cegueira da economia, que atinge muitos economistas que, segundo Wolfgang Munchau, padecem de analfabetismo político-social.

Political Science and the 2017 UK General Election

Até ao fim de Julho podem aceder livremente a esta colecção de artigos subordinados à temática ‘Political Science and the 2017 UK General Election’. Destaco “Political Opposition and the European Union” de Peter Mair e “The Populist Zeitgeist” de Cas Mudde.

O impacto do Brexit em África

Carlos Lopes, “Africa’s Stake in Brexit”:

By far the most significant impact of a “hard Brexit” for Africa would be felt in the financial services sector. In negotiating the UK’s exit from the EU, Prime Minister Theresa May’s government will be seeking to ensure that the City of London retains its place as Europe’s premier financial center. But even if May fails, London-based financial institutions could simply pull up stakes and decamp to continental Europe. Africa, however, could suffer as a result.

For example, the strengthening of the African banking sector in recent years – including the expansion of cross-border banking activities – has been made possible in part by innovative fintech (financial technology) products developed in London. Cutting-edge finance solutions used to modernize institutions like Standard Bank, Africa’s largest bank, depend on the expertise housed at UK-based institutions. If Brexit weakens London’s role as a financial center, the collateral damage for Africa would be measured in diminished investor confidence, gaps in banking services, and interrupted networks and processes. The financial innovation engine, in other words, could grind to a halt.

A weaker UK financial-services sector could also lead to a dearth of talent with knowledge of African markets. That could hurt UK-African trade more broadly. Unfortunately, Britain may be more important for Africa’s future in this regard than vice versa. With less than 5% of Britain’s trade deficit tied to Africa, the continent is not likely to be near the top of the UK government’s current preoccupations.

Diplomatic ties could be damaged, too, if a more inward-looking UK closes its doors to African travelers and students seeking to enroll in British universities. In short, the historical, political, and economic ties strengthened over decades could fray as UK-EU negotiations move forward.

But the risk Brexit poses to Africa should not be overstated. For one thing, trade isn’t the backbone it once was in the relationship. Only a small number of African countries are vying for access to the UK market, whereas many are looking to conduct more trade with one another.

Africa is learning to stand on its own in other ways, too. Since 2000, total annual aid to Africa has averaged $50 billion, while tax revenue during the same period grew from $163 billion to an astonishing $550 billion. The increase in FDI inflows, access to sovereign debt, and sharp expansion of migrant remittances have all contributed to a shift in the revenue base away from commodities. And African leaders are today busy establishing new alliances with their neighbors, improving business environments, and collaborating on industrialization projects.

Entrevista de Jeffry Frieden sobre a crise do euro

Jeffry Frieden a explicar coisas fáceis de entender sobre a crise do euro e o futuro da União Europeia. Não vi esta entrevista muito divulgada por cá e compreende-se porquê: à esquerda é mais fácil continuar a acreditar na narrativa sobre o malvado ultra-neo-liberalismo, ao passo que à direita é mais fácil continuar a acreditar na narrativa dos trabalhadores do norte contra os preguiçosos do sul, dos responsáveis contra os irresponsáveis que só gastam dinheiro em copos e mulheres, que serve os interesses alemães.

O problema não são as declarações de Dijsselbloem

Para lá da deselegância óbvia geradora da indignação fácil, o verdadeiro problema é aquilo que subjaz às declarações do holandês: uma narrativa dominante entre as elites europeias, inclusive entre muitos políticos de países do sul da Europa, que só vê virtudes nos países do norte da Europa e defeitos nos países do sul, no que concerne à sua gestão política e económica, ignorando, propositadamente ou não, que a crise do euro se deve à deficiente arquitectura deste. Permitam-me recuperar o que escrevi em 2014 a este respeito:

Começando no estabelecimento da União Económica e Monetária – em que prevaleceu a visão do Bundesbank de um BCE inspirado no seu modelo, centrado quase exclusivamente na estabilidade de preços -, que não era e continua a não ser uma Zona Monetária Óptima, circunstância agravada pela inexistência de uma união orçamental que permitisse uma gestão macroeconómica conjunta, o que a torna propensa a choques assimétricos; passando por uma fragilidade estrutural essencial para a compreensão da crise, segundo Paul De Grauwe, que é a perda da capacidade de os países emitirem dívida numa moeda própria, emitindo-a numa moeda que não controlam, pelo que estão, assim, mais facilmente à mercê dos mercados financeiros e podem ser rapidamente precipitados por estes para um default; e chegando aos anos da crise do euro, em que o diagnóstico da crise da dívida soberana grega foi erradamente generalizado a outros países, conforme Jay Shambaugh sublinha, servindo como justificação para prescrever pacotes de austeridade e reformas estruturais que, per se, não são suficientes para superar os constrangimentos resultantes das fragilidades estruturais da UEM, conclui-se que estas fragilidades não só resultam da perspectiva alemã aquando das negociações que levaram ao seu estabelecimento, como aproveitam actualmente à Alemanha. Hans Kundnani assinala que a actual situação, com um euro fraco (segundo Andrew Moravcsik, a taxa de câmbio real da Alemanha, actualmente, está 40% abaixo do que estaria se o país ainda tivesse o marco alemão), é a ideal para a economia alemã baseada nas exportações e avisa que o narcisismo económico da Alemanha coloca toda a Zona Euro em causa. Assim, a Alemanha está actualmente numa posição muito confortável, com um euro fraco que favorece as suas exportações, tornando-a a economia mais competitiva da Zona Euro, e, em parte em resultado disto, encontra-se de forma indisputada na liderança política da UE, tendo a cooperação entre países soberanos sido relegada em favor de uma dominação de facto por parte de Berlim. Ulrich Beck resume de forma lapidar esta situação em A Europa Alemã: “Como a Alemanha é o país mais rico, agora é ela que manda no centro da Europa.” A austeridade imposta erradamente aos países sob resgate financeiro permite à Alemanha manter este status quo em que, nas palavras de Moravcsik, ao “utilizar uma moeda subvalorizada para acumular excedentes comerciais, a Alemanha actua como a China da Europa.”

A Europa inimiga de si própria

Charles Hill, “Islamism Implacable”:

Put simply, the European Union made itself the epitome of the Modern Age by relentless secularization. Islamism, emerging from the post–World War I collapse of the Ottoman empire and caliphate, made itself the vanguard of jihadist religion’s rise to become the implacable adversary of modernity. If Europe is where the siege is to take place, the drawbridge already is up: Islamism abhors the state; the EU has emasculated it.

Islamism recognizes only one border: between itself and regions yet to become Muslim; Europe has opened its borders to the point of abolishing the concept altogether.

Islamism regards democracy as un-Islamic because it enacts laws other than sharia; the European Union from its inception has acted assiduously to prevent people from governing themselves democratically.

Islamists, like Machiavelli, know that armed prophets are victorious and unarmed prophets are destroyed; the European Union has deliberately diminished its capacities to defend itself or to back its diplomacy with strength.

And while Islamists declare religion to be the answer, the EU has seen religion as the problem. As Pierre Manent has pointed out, had Europeans maintained their identity as sovereign states with a Christian heritage, the assimilation of Muslims could have been possible on the basis of comity,  whereas now it lacks an answer to “assimilation to what?”

Americans need to understand that the Modern Age with its pluralistic structures, societies, and beliefs is under assault and that the enemies of modernity are uniate, unwilling to accept others on an equal basis. In this context America’s involvement in the Middle East must take the side of pluralistic states and parties compatible with the international system.

Only Europeans can rectify the flaws in the European Union’s design to enable Europe to act on the world stage as a bordered state incorporating its historic nation-states in confederation. And only Europeans can attend to the needs of the European soul.

But however the relationship between Britain and Europe comes out, the United States must regard its relations with both as “special.” Transatlantic unity has been the keystone of the defense and extension of freedom in war-time for a hundred years and must remain so.

It is not the European Union but NATO that has been the key to transatlantic solidarity. Strengthening NATO as a military alliance with political consequences in support of a reformed European Union must be at the core of American policy. NATO’s role “out of area” will be vital along with continued efforts to integrate like-minded partners to the extent possible: Russia, Israel, the gulf Arab states. The Modern Age itself is at stake.