O problema não são as declarações de Dijsselbloem

Para lá da deselegância óbvia geradora da indignação fácil, o verdadeiro problema é aquilo que subjaz às declarações do holandês: uma narrativa dominante entre as elites europeias, inclusive entre muitos políticos de países do sul da Europa, que só vê virtudes nos países do norte da Europa e defeitos nos países do sul, no que concerne à sua gestão política e económica, ignorando, propositadamente ou não, que a crise do euro se deve à deficiente arquitectura deste. Permitam-me recuperar o que escrevi em 2014 a este respeito:

Começando no estabelecimento da União Económica e Monetária – em que prevaleceu a visão do Bundesbank de um BCE inspirado no seu modelo, centrado quase exclusivamente na estabilidade de preços -, que não era e continua a não ser uma Zona Monetária Óptima, circunstância agravada pela inexistência de uma união orçamental que permitisse uma gestão macroeconómica conjunta, o que a torna propensa a choques assimétricos; passando por uma fragilidade estrutural essencial para a compreensão da crise, segundo Paul De Grauwe, que é a perda da capacidade de os países emitirem dívida numa moeda própria, emitindo-a numa moeda que não controlam, pelo que estão, assim, mais facilmente à mercê dos mercados financeiros e podem ser rapidamente precipitados por estes para um default; e chegando aos anos da crise do euro, em que o diagnóstico da crise da dívida soberana grega foi erradamente generalizado a outros países, conforme Jay Shambaugh sublinha, servindo como justificação para prescrever pacotes de austeridade e reformas estruturais que, per se, não são suficientes para superar os constrangimentos resultantes das fragilidades estruturais da UEM, conclui-se que estas fragilidades não só resultam da perspectiva alemã aquando das negociações que levaram ao seu estabelecimento, como aproveitam actualmente à Alemanha. Hans Kundnani assinala que a actual situação, com um euro fraco (segundo Andrew Moravcsik, a taxa de câmbio real da Alemanha, actualmente, está 40% abaixo do que estaria se o país ainda tivesse o marco alemão), é a ideal para a economia alemã baseada nas exportações e avisa que o narcisismo económico da Alemanha coloca toda a Zona Euro em causa. Assim, a Alemanha está actualmente numa posição muito confortável, com um euro fraco que favorece as suas exportações, tornando-a a economia mais competitiva da Zona Euro, e, em parte em resultado disto, encontra-se de forma indisputada na liderança política da UE, tendo a cooperação entre países soberanos sido relegada em favor de uma dominação de facto por parte de Berlim. Ulrich Beck resume de forma lapidar esta situação em A Europa Alemã: “Como a Alemanha é o país mais rico, agora é ela que manda no centro da Europa.” A austeridade imposta erradamente aos países sob resgate financeiro permite à Alemanha manter este status quo em que, nas palavras de Moravcsik, ao “utilizar uma moeda subvalorizada para acumular excedentes comerciais, a Alemanha actua como a China da Europa.”

A Europa inimiga de si própria

Charles Hill, “Islamism Implacable”:

Put simply, the European Union made itself the epitome of the Modern Age by relentless secularization. Islamism, emerging from the post–World War I collapse of the Ottoman empire and caliphate, made itself the vanguard of jihadist religion’s rise to become the implacable adversary of modernity. If Europe is where the siege is to take place, the drawbridge already is up: Islamism abhors the state; the EU has emasculated it.

Islamism recognizes only one border: between itself and regions yet to become Muslim; Europe has opened its borders to the point of abolishing the concept altogether.

Islamism regards democracy as un-Islamic because it enacts laws other than sharia; the European Union from its inception has acted assiduously to prevent people from governing themselves democratically.

Islamists, like Machiavelli, know that armed prophets are victorious and unarmed prophets are destroyed; the European Union has deliberately diminished its capacities to defend itself or to back its diplomacy with strength.

And while Islamists declare religion to be the answer, the EU has seen religion as the problem. As Pierre Manent has pointed out, had Europeans maintained their identity as sovereign states with a Christian heritage, the assimilation of Muslims could have been possible on the basis of comity,  whereas now it lacks an answer to “assimilation to what?”

Americans need to understand that the Modern Age with its pluralistic structures, societies, and beliefs is under assault and that the enemies of modernity are uniate, unwilling to accept others on an equal basis. In this context America’s involvement in the Middle East must take the side of pluralistic states and parties compatible with the international system.

Only Europeans can rectify the flaws in the European Union’s design to enable Europe to act on the world stage as a bordered state incorporating its historic nation-states in confederation. And only Europeans can attend to the needs of the European soul.

But however the relationship between Britain and Europe comes out, the United States must regard its relations with both as “special.” Transatlantic unity has been the keystone of the defense and extension of freedom in war-time for a hundred years and must remain so.

It is not the European Union but NATO that has been the key to transatlantic solidarity. Strengthening NATO as a military alliance with political consequences in support of a reformed European Union must be at the core of American policy. NATO’s role “out of area” will be vital along with continued efforts to integrate like-minded partners to the extent possible: Russia, Israel, the gulf Arab states. The Modern Age itself is at stake.