Da polarização política nas redes sociais

Jeffrey Rosen, America Is Living James Madison’s Nightmare:

Exacerbating all this political antagonism is the development that might distress Madison the most: media polarization, which has allowed geographically dispersed citizens to isolate themselves into virtual factions, communicating only with like-minded individuals and reinforcing shared beliefs. Far from being a conduit for considered opinions by an educated elite, social-media platforms spread misinformation and inflame partisan differences. Indeed, people on Facebook and Twitter are more likely to share inflammatory posts that appeal to emotion than intricate arguments based on reason. The passions, hyper-partisanship, and split-second decision making that Madison feared from large, concentrated groups meeting face-to-face have proved to be even more dangerous from exponentially larger, dispersed groups that meet online.

Dias difíceis para Trump

Como se não bastasse o novo livro de Bob Woodward, em que Trump aparece recorrentemente retratado pelos membros da sua Administração como uma criança ignorante, este artigo vem confirmar a resistência de muitos destes membros e, creio, vai certamente espoletar uma acesa discussão na sociedade americana, desde logo porque, provavelmente, não tardará que alguém levante a questão da ausência de legitimidade democrática de membros da Administração e funcionários governamentais que frustram ou, pelo menos, limitam o alcance de decisões tomadas pelo Presidente dos EUA, mesmo que estas sejam disparatadas e contrárias ao interesse nacional. Por outro lado, a alusão à 25.ª Emenda irá certamente reforçar os que pedem que se incie um processo de impeachment. Entretanto, no Twitter, Trump invoca a segurança nacional para exigir ao New York Times que entregue o autor do artigo à Administração, revelando, mais uma vez, os seus tiques autoritários e mostrando que continua sem perceber como funciona uma democracia liberal e a liberdade de imprensa.

Make America Weak Again

Amy Zegart:

Trump has a foreign-policy doctrine, all right. He’s been advancing it with remarkable speed, skill, and consistency. Its effect can be summed up in one neat slogan: Make America Weak Again.

America’s preeminence on the world stage rests on five essential sources of power: neighbors, allies, markets, values, and military might. The Trump Doctrine is weakening all of them except the military.”

(…).

International-relations scholars have long found that great powers typically fall for two reasons: imperial overstretch or rivalry with other great powers. Never in world history has a country declined because of so many self-inflicted attacks on the sources of its own power.

A procissão ainda vai no adro

trump kim jong un.jpg

Entre os vários modelos de análise de negociações internacionais, merece particular destaque o modelo provavelmente mais aproximado à realidade, proposto, em 1982, por Zartman e Berman, no clássico The Practical Negotiator. Este modelo, que se mantém actual, ainda que revisto e actualizado por G. R. Berridge, é simples e permite evitar resvalar para um dos dois extremos que se têm manifestado nos últimos dias, a celebração efusiva e a desvalorização do que Trump alcançou na já histórica cimeira de Singapura.

Resumidamente, o modelo prevê a existência de 3 fases em qualquer negociação internacional: a pré-negociação, a negociação e a pós-negociação/follow-up. A fase da negociação (ou around-the-table negotiations), por sua vez, subdivide-se em duas fases, a da fórmula e a dos detalhes. A fórmula é, essencialmente, um conjunto de ideias simples e abrangente que enquadra a questão a ser negociada, estabelecendo uma percepção partilhada sobre esta e uma estrutura cognitiva de referentes para uma solução ou um critério ou ideia de justiça a concretizar por via da negociação. No caso do acordo assinado em Singapura, a fórmula resume-se à ideia de “security guarantees for complete denuclearization“, na medida em que Trump promete criar condições de segurança para a Coreia do Norte e esta, por seu turno, se compromete a desenvolver esforços no sentido da total desnuclearização, algo que muitos analistas não consideram uma possibilidade verosímil.

Agora compete às equipas de negociadores darem conteúdo prático aos compromissos, na fase dos detalhes, aquela em que se estabelecem medidas e passos concretos. Ainda vai demorar algum tempo até percebermos se a Coreia do Norte irá realmente avançar no sentido da desnuclearização (algo que até só poderá ser perceptível na fase de pós-negociação), pelo que resta-nos esperar para ver como se desenvolverão as negociações, não sendo despiciendo assinalar que o modelo é meramente uma ferramenta analítica, sendo possível, na prática, que as fases se sobreponham e também que se regrida de uma fase posterior para uma anterior.

Sublinhe-se que isto não retira valor à cimeira de Singapura. O que Trump alcançou encontra-se fundamentalmente no domínio do simbólico, mas o encontro com Kim Jong-Un foi um passo essencial para o eventual desbloqueio da situação na península coreana. Do acordo assinado não se poderia esperar algo mais que uma manifestação de intenções generalistas, mas não se pode desvalorizar o facto de Trump ter sido o primeiro presidente norte-americano a sentar-se à mesa das negociações com um líder norte-coreano, nem a forma como conseguiu criar as condições para o encontro, recorrendo a uma retórica invulgar num presidente dos EUA. Se a retórica de Obama, que nos deixou um mundo certamente mais inseguro que aquele que tinhamos em 2008, mereceu um Prémio Nobel da Paz, o que premiará, gostando-se ou não da sua abordagem algo primária, a actuação de Trump no domínio da desnuclearização?

Zartman e Berman.jpgBerridge.png

Trump e o Prémio Nobel da Paz

Miguel Sousa Tavares, na SIC, afirmou há pouco que se o Prémio Nobel da Paz for entregue a Trump, algo que foi hoje sugerido pelo Presidente da Coreia do Sul, a instituição do Prémio Nobel acaba e até a própria família de Trump se rirá a bandeiras despregadas. Sendo eu insuspeito nesta matéria, dada a minha opinião negativa acerca de Trump, e considerando as devidas cautelas quanto à concretização da desnuclearização proclamada por Kim Jong-Un, não deixa de ser irónico que Trump possa ser um factor determinante para a pacificação da Península da Coreia. 

Ora, atentemos na justificação do Comité Nobel Norueguês para atribuir o Prémio a Obama em 2009: “The Norwegian Nobel Committee has decided that the Nobel Peace Prize for 2009 is to be awarded to President Barack Obama for his extraordinary efforts to strengthen international diplomacy and cooperation between peoples. The Committee has attached special importance to Obama’s vision of and work for a world without nuclear weapons.”

Claro que as visões e ideias são importantes, mas a concretizar-se a desnuclearização da Coreia do Norte, talvez valesse a pena relembrar, em linha com Maquiavel, que em política o que importa é a verdade efectiva das coisas e os resultados, não a imaginação. Como escreveu o florentino: “Nas acções de todos os homens, e mormente dos príncipes, em que não há um tribunal para onde reclamar, olha-se é ao resultado. Faça, pois, um príncipe por vencer e por manter o estado: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos serão louvados, porque o vulgo prende-se é com o que parece e com o desenlace das coisas.” 

Mas claro que o Comité Nobel Norueguês pode sempre preferir continuar a desvalorizar a importância do Prémio Nobel da Paz. Afinal, a Academia Sueca tem feito o mesmo, com bastante sucesso, com o Prémio Nobel da Literatura. São, aliás, cada vez mais aqueles que atribuem pouca ou nenhuma importância à instituição dos Prémios Nobel – bem como às opiniões de Miguel Sousa Tavares.

China, Rússia e a subversão das democracias liberais

Larry Diamond, This Sputnik Moment:

The proliferating global influence activities of China and Russia diverge from traditional means of public diplomacy. Instead, they use wealth, stealth and coercion to coopt influential policy voices and players, control information flows, censor unfavorable reporting and analysis, and ultimately mold societal attitudes and government postures.

The methods vary. Each regime has relied heavily on the promotion of its state-controlled media abroad, such as Xinhua News Agency, CGTV, and RT (formerly Russia Today). Russia has been perfecting a new form of geopolitical warfare, using social media to intensify political polarization, inflame social divisions, sow doubt and cynicism about democracy, and promote pro-Russian politicians and parties. Through investments, partnership agreements, donations, exchanges, positions on boards of directors, and other “friendly” relations, China has fostered wider and deeper penetration into the vital tissues of democracies—media, publishing houses, entertainment industries, technology companies, universities, think tanks, and non-governmental organizations. These intrusions are rapidly expanding not only in the West but in Latin America, post-communist Europe, and Africa as well. In different but perhaps equally devastating ways, China and Russia are using the openness and pluralism of democracies to subvert and bend them to their strategic objectives—principally, the weakening of Western democratic alliances and the relentless expansion of their own economic and geopolitical power.

What these two resurgent authoritarian states are projecting, argue Walker and Ludwig, is power that is not “soft” but rather “sharp,” like the tip of a dagger: It enables them “to cut, razor-like, into the fabric of a society, stoking and amplifying existing divisions” (in the case of Russia) or to seek, especially in the case of China, “to monopolize ideas, suppress alternative narratives, and exploit partner institutions.”

(…).

The bottom-line stakes are existential: Will the United States—and liberal democracies collectively—retain global leadership economically, technologically, morally, and politically, or are we entering a world in which we conspire in our own eclipse?

Das operações russas de propaganda nas redes sociais

Asha Rangappa, “How Facebook Changed the Spy Game”:

The vast majority of counterintelligence cases I worked in the FBI involved a foreign intelligence service (FIS) conducting what we called “perception management campaigns.” Perception management, broadly defined, includes any activity that is designed to shape American opinion and policy in ways favorable to the FIS home country. Some perception management operations can involve aggressive tactics like infiltrating and spying on dissident groups (and even intimidating them), or trying to directly influence U.S. policy by targeting politicians under the guise of a legitimate lobbying group. But perception management operations also include more passive tactics like using media to spread government propaganda—and these are the most difficult for the FBI to investigate.

(…).

As the internet renders useless the FBI’s normal methods to counter foreign propaganda, the reach of these operations has increased a thousandfold. In the past, a failure to neutralize a perception management operation would at least be limited by the reach of “traditional,” i.e., paper, media which are practically constrained to a region or paying customers. But social media platforms can reach an almost limitless audience, often within days or hours, more or less for free: Russia’s Facebook ads alone reached between 23 million and 70 million viewers. Without any direct way to investigate and identify the source of the private accounts that generate this “fake news,” there’s literally nothing the FBI can do to stop a propaganda operation that can occur on such a massive scale.

This fact is not lost on the Russians. Like any country with sophisticated intelligence services, Russia has long been a careful student of U.S. freedoms, laws and the constraints of its main nemesis in the U.S., the FBI. They have always known how to exploit our “constitutional loopholes”: The difference now is that technology has transformed the legal crevice in which they used to operate into a canyon. The irony, of course, is that the rights that Americans most cherish—those of speech and press—and are now weaponized against us are the same ones Russia despises and clamps down on in its own country.

Reacções da China à saída dos EUA do Acordo de Paris

Ao contrário do que muitos pensam, a saída dos EUA do Acordo de Paris não serve os interesses da China – bem pelo contrário, como se pode constatar no mais recente número do China Leadership Monitor da Hoover Institution.

Provavelmente, o mais patético líder político contemporâneo

Durante a última campanha eleitoral nos EUA, foram surgindo muitos apoiantes e acólitos de Donald Trump que, de certa maneira, se assemelhavam aos apoiantes de Obama que acreditavam que o primeiro presidente americano negro seria uma espécie de enviado divino com a missão de resolver todos os males no planeta. Claro que o entusiasmo pueril em torno de determinados líderes políticos (numa linguagem weberiana, alguns podem ser classificados como carismáticos), assim como a diabolização de outros, fazem parte da essência das campanhas eleitorais. Passada a campanha, quando o eleito é confrontado com a realidade política da governação, muitos dos seus eleitores acabam, inevitavelmente, por ver as suas expectativas frustradas, ao passo que muitos dos seus detractores, mesmo que não o admitam, acabam por perceber que o mundo não acabou e que a vida continua. Como ninguém está imune a este tipo de emoções, uma certa dose de pessimismo é, portanto, uma saudável recomendação para quem prefere afinar pelo diapasão da temperança. Por isto mesmo, não acreditei que Trump fosse um anjo ou o diabo, preferindo aguardar para ver no que resultaria a sua presidência. Quem tem acompanhado a política americana ao longo dos últimos meses reconhecerá que talvez fosse difícil fazer pior, salvando-se, no campo da política externa, como honrosa excepção, a mensagem que enviou à Rússia e à China por via do ataque lançado contra a Síria. Mas após o polémico episódio de há uns dias, em que Trump tweetou um vídeo de si próprio a esmurrar alguém com o logo da CNN no lugar da cabeça, estou convencido de que, embora não seja um anjo nem o demónio, Trump será, provavelmente, o mais patético líder político contemporâneo, um adolescente que, para mal dos EUA e do mundo, se encontra no mais poderoso cargo político existente.

Do excepcionalismo americano

David Frum, “The Souring of American Exceptionalism”:

America’s uniqueness, even pre-Trump, was expressed as much through negative indicators as positive. It is more violent than other comparable societies, both one-on-one and in the gun massacres to which the country has become so habituated. It has worse health outcomes than comparably wealthy countries, and some of the most important of them are deteriorating further even as they improve almost everywhere else. America’s average levels of academic achievement lag those of other advanced countries. Fewer Americans vote—and in no other democracy does organized money count for so much in political life. A century ago, H.L. Mencken observed the American “national genius for corruption,” and (again pre-Trump) Transparency International’s corruption perceptions index ranks the U.S. in 18th place, behind Hong Kong, Belgium, Australia, Canada, the Netherlands, the United Kingdom, Germany—never mind first-place finishers Denmark and New Zealand.

As I said: pre-Trump. Now the United States has elected a president who seems much more aligned with—and comfortable in the company of—the rulers of Turkey, Hungary, Uzbekistan, and the Philippines than his counterparts in other highly developed countries.

That result forces a reshaping of the question of American exceptionalism.

“Why was the United States vulnerable to such a person when other democracies have done so much better?” Part of the answer is a technical one: The Electoral College, designed to protect the country from demagogues, instead elected one. But then we have to ask: How did Trump even get so far that the Electoral College entered into the matter one way or another?

Thinking about that question forces an encounter with American exceptionalism in its most somber form. If, as I believe, Donald Trump arose because of the disregard of the American political and economic elite for the troubles of so many of their fellow-citizens, it has to be asked again: How could the leaders of a democratic country imagine they could get away with such disregard?

A mensagem de Trump para Putin e Xi Jinping

Não se consegue ainda perceber bem as consequências do ataque que Trump lançou esta noite sobre a base militar síria de onde alegadamente saíram os aviões que protagonizaram o recente ataque com armas químicas na Síria – ainda não foi confirmada a autoria deste ataque, embora a administração norte-americana afirme que tudo indica que a responsabilidade recai sobre Assad e a posição russa seja realmente risível. Alguns começaram já a condenar Trump por trair a retórica isolacionista em termos de política externa utilizada durante a campanha para as eleições presidencias do ano passado, outros afirmam que o ataque desta noite mostra um aventureirismo perigoso.

Eu prefiro sublinhar que Xin Jinping chegou ontem aos EUA para reunir com Trump e que tanto a China como a Rússia têm apoiado a Síria na ONU, o que me faz crer que a acção algo imprevisível de Trump comporta essencialmente uma mensagem para Pequim e Moscovo: há linhas que não podem ser atravessadas mesmo em contextos de guerra e os EUA não vão assistir impavidamente às acções de russos e chineses que atravessam essas linhas ou que apoiam quem as atravessa.

O ataque lançado pelos EUA é cirúrgico o suficiente para ser uma justa retaliação pela acção inqualificável de Assad, mas também, e mais importante, para servir como demonstração de força e enviar uma mensagem a Putin. E não deixa de ser ridículo ver o presidente russo, tantas vezes aplaudido por muitos por decisões imprevisíveis e demonstrações de força que ignoram ou violam o direito internacional e são justificadas por pretextos dúbios recorrendo a argumentos tipicamente utilizados por potências ocidentais, vir agora argumentar que a decisão de Trump viola o direito internacional, é uma agressão a um Estado soberano  e prejudica as relações entre EUA e Rússia. Ora, afinal, o que foram as invasões da Geórgia e da Ucrânia, e em particular a anexação da Crimeia, senão provocações da Rússia a todo o Ocidente e agressões a Estados soberanos violadoras do direito internacional?

A utilização recorrente deste tipo de argumentos por Putin, que não correspondem à prática russa, deixa bem patente a duplicidade do presidente russo que ainda vai passando algo incólume, mas a sua utilização no dia de hoje mostra também que Putin foi surpreendido por Trump e não sabe bem, pelo menos para já, como reagir –  o que é muito positivo.