Vergonhoso

O discurso proferido há pouco por António Costa é absolutamente vergonhoso. A total falta de empatia, a incapacidade para a assunção de responsabilidades, a ausência de um pedido de desculpas aos portugueses por, em larga medida, terem sido deixados à sua sorte nestes últimos dias e pelos disparates ontem proferidos por membros do seu governo e por ele próprio, a repetitiva remissão para o relatório da comissão técnica independente sobre a tragédia de Junho deste ano, tudo isto é absolutamente deplorável. António Costa mostrou não ter qualquer sentido de Estado e que a reputação de politiqueiro lhe assenta como uma luva. Se dúvidas houvesse a este respeito, bastaria atentar no resumo de Gabriel Silva dos erros e responsabilidades directas que o Primeiro-Ministro teima em não assumir. Tudo isto vindo de um Primeiro-Ministro que afirma agora que “Depois deste ano nada ficará como dantes”, quando a sua proposta de Orçamento do Estado para 2018 não deixa adivinhar qualquer mudança estrutural no dispositivo de prevenção e combate aos incêndios. Como acontece há já cerca de 40 anos e como o próprio António Costa afiançava ontem, para o ano há mais, infelizmente.

Até quando abusarão da nossa paciência?

À hora a que escrevo este texto, registam-se 31 mortos nos incêndios de ontem, número que deverá continuar a aumentar. Quatro meses depois da tragédia de Pedrógão Grande, poucos dias após a publicação do relatório que evidencia as falhas graves que originaram esta tragédia – em resposta ao qual, a Ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, diz que não se demite – e no dia em que o Secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, afirmou que “Têm de ser as próprias comunidades a ser proativas e não ficarmos todos à espera que apareçam os nossos bombeiros e aviões para nos resolver os problemas. Temos de nos autoproteger, isso é fundamental”.

Já nem falo nas consequências políticas que deveriam ser retiradas de tudo isto, da liderança da Protecção Civil por boys incompetentes, da gestão política com o objectivo de manter a popularidade de António Costa e de segurar a Ministra no cargo, da total ausência de conhecimento por parte da Ministra e do Secretário de Estado em relação à forma como vivem as populações no interior rural do país e como combatem os incêndios com os meios escassos que têm à disposição, da redução de meios de combate aos incêndios em resultado da compartimentação deste combate em várias fases, da desorientação e falta de coordenação dos meios existentes, do escandâlo que é o SIRESP, enfim, de tudo o que contribui para o que estamos a viver.

Apenas questiono, considerando que ano após ano se repete este flagelo, que as condições atmosféricas propícias a estes incêndios se registam ao longo de metade do ano, que ao Estado compete garantir a segurança dos seus cidadãos, até quando continuarão os políticos a ignorar a necessidade de estabelecer um dispositivo integrado de prevenção e combate aos incêndios florestais altamente profissional, especializado e em funcionamento durante todo o ano e a tempo inteiro? O que é que ainda terá de acontecer para que isto constitua uma prioridade nacional?

Do declínio do projecto liberal ao regresso da política no PSD

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A saída de cena de Passos Coelho abriu espaço no PSD para um eventual retorno da política ao centro da acção do partido, especialmente se for Santana Lopes o novo líder escolhido pelos sociais-democratas.

O anterior Primeiro-Ministro tem uma formação académica em economia e herdou uma situação política de crise em que as questões económicas e financeiras predominavam sobre quaisquer outras. Ademais, a sua ascensão à liderança do PSD e, posteriormente, do Governo, ficou marcada por uma atmosfera intelectual e política de acolhimento de um projecto político liberal que, em boa parte, passou dos blogs e de alguns meios académicos para o PSD. À semelhança de Passos Coelho, muitos dos que o rodearam e apoiaram neste projecto são formados em economia ou engenharia e as suas actividades profissionais passam, em larga medida, pelo ensino e investigação nestas áreas ou pelo meio empresarial.

Tal como Passos Coelho, muitos destes liberais acreditam ou acreditavam na narrativa alemã de imposição da austeridade como forma de expiar os pecados cometidos por governos anteriores e pelos próprios portugueses que teriam vivido acima das suas possibilidades e que, por isso, deveriam ser castigados. Escusando-me de abordar neste texto o confronto entre as duas narrativas durante a crise do euro e a errada receita da austeridade excessiva em que os merkelistas, passistas e muitos outros acreditavam, aos leitores interessados nesta temática recomendo a leitura deste artigo de Paul De Grauwe ou deste de Jay Shambaugh, em que fica patente que o caso grego é singular e o seu diagnóstico foi erradamente alargado a outros países.

Ao longo dos últimos anos, a receita da austeridade foi perdendo muitos adeptos em várias instituições internacionais e países – mesmo enquanto o Governo de Passos Coelho ainda estava no poder e acreditava em ir além da troika. Ademais, quando chegou ao fim o período e o plano do resgate financeiro a que Portugal foi sujeito, o Governo composto pelo PSD e CDS mostrou não ter qualquer outro plano norteador da sua acção.

Após as eleições legislativas de 2015, a solução encontrada por António Costa, a chamada geringonça, provocou uma alteração estrutural no sistema político português e remeteu Passos Coelho para a oposição. Ao longo dos dois últimos anos, a estratégia oposicionista de Passos Coelho passou essencialmente por anunciar, num tom catastrofista, que as políticas de António Costa e Mário Centeno irão levar-nos novamente a uma situação económica e financeira periclitante. Com excepção da dívida pública, os indicadores económicos têm contrariado as previsões de Passos Coelho. É certo que a conjuntura internacional continua a favorecer a nossa economia, embora devamos estar atentos à forma como o próximo governo de Merkel se irá posicionar e relacionar com Macron a respeito da reforma da União Europeia, bem como ao impacto que o Brexit terá no funcionamento futuro das instituições europeias. Mas também é certo que António Costa e Mário Centeno transmitem a imagem de que as finanças públicas estão sob controlo, apesar do aumento da dívida pública, e que as políticas do actual governo têm favorecido o crescimento económico. Claro que vários políticos e comentadores afectos ao PSD procuram reivindicar os bons resultados para o anterior Governo, mas independentemente do que for verdadeiro a este respeito, é o actual Governo que está no poder e, por isso, muito facilmente consegue reclamar para si os louros do recente crescimento económico. Ademais, se com o anterior Governo, de acordo com Luis Montenegro, a vida das pessoas não ficou melhor mas o país ficou muito melhor, com o actual Governo as pessoas sentem melhorias reais nas suas vidas, que se traduzem no aumento dos seus rendimentos.

Ora, como ensinava Maquiavel – e aqui limito-me ao papel de observador, não emitindo qualquer juízo de valor sobre o que se segue – em política é a verdade efectiva das coisas que importa, são as consequências que devem prevalecer na tomada de decisão (ou na terminologia de Max Weber, a ética da responsabilidade deve preponderar sobre a ética da convicção), e são os resultados reais que importam aos cidadãos. Porque, citando O Príncipe, “Nas acções de todos os homens, e mormente dos príncipes, em que não há um tribunal para onde reclamar, olha-se é ao resultado. Faça, pois, um príncipe por vencer e por manter o estado: os meios serão sempre julgados honrosos e por todos serão louvados, porque o vulgo prende-se é com o que parece e com o desenlace das coisas.” Daí que Maquiavel, segundo José Adelino Maltez, seja “acima de tudo, o teórico do «homem de sucesso», do vencedor efectivo e não daquele que apenas tem vitórias ditas morais.” Nesta perspectiva, é fácil perceber quem é o homem de sucesso na contenda entre António Costa e Passos Coelho.

Um dos principais erros em que Passos Coelho e muitos liberais portugueses incorrem é a crença na distinção de uma realidade objectiva e única, que se impõe às ideologias e à política e que, alegadamente, eles conseguem discernir. Não explorando sequer os complexos problemas filosóficos da realidade e da verdade, creio ser útil complementar os ensinamentos de Maquiavel com a distinção de Harold e Margaret Sprout, no domínio das relações internacionais e da análise de política externa, entre o psychological milieu (ou meio psicológico) e o operational milieu (ou meio operacional) dos decisores políticos. O primeiro é o meio conforme é percepcionado pelo decisor, influenciado pelas suas crenças e vieses cognitivos, sendo o meio mais importante na formulação de decisões, ao passo que o segundo é o meio conforme este realmente é, no qual as decisões são executadas. A existência de incongruências entre os dois meios pode levar a más decisões e péssimos resultados. Parece-me que a incongruência entre o meio percepcionado por Passos Coelho e o meio operacional explica o fracasso da estratégia oposicionista insistentemente praticada.

Centrando-se esta estratégia meramente nas questões económicas, Passos Coelho e os seus apoiantes acabaram por se ver reduzidos à crítica ao crescimento da dívida pública e tornaram-se incapazes de gizar uma estratégia de oposição que permitisse combater o Governo de António Costa em várias frentes e eixos de acção política. Esta incapacidade parece-me resultar dos seus parcos ou nulos conhecimentos e interesses relativamente a outras áreas do conhecimento além da economia. Na realidade, a maioria dos liberais portugueses pouco ou nada tem a dizer de interessante, com autoridade e além dos seus dogmas ideológicos e da doxa plasmada em artigos de jornal e conversas de café,  sobre o exercício do poder político (querem um Estado mínimo ou, alguns, mais extremistas, a dissolução do Estado) e sobre temas como, a título exemplificativo, a representação política e a reforma do sistema eleitoral, a administração da justiça, o mundo do trabalho e as relações laborais (acreditam que os empresários são vítimas dos trabalhadores e do Estado), as políticas sociais (são para substituir pela caridade), a educação ou a saúde (só deveriam ser prestadas por privados), ou a política externa portuguesa que tem de enfrentar os desafios colocados pela reforma de uma União Europeia confrontada com o Brexit.

Por tudo isto, estou em crer que o projecto liberal que teve na liderança de Passos Coelho o seu pináculo em termos de exercício do poder político continuará em declínio e que, se Santana Lopes ascender à liderança do PSD, a oposição deste partido ao Governo de António Costa será decisivamente norteada por critérios políticos e a sua acção política global marcada pela formulação de um projecto político alternativo para o país – algo que Passos Coelho manifestamente não tem.

O capital talvez tenha pátria

A Alemanha que se recusa a reconhecer que a União Económica e Monetária (UEM) gera desequilíbrios que levam a choques assimétricos, que acredita que os seus excedentes comerciais resultam meramente da boa gestão e não se devem aos desequílibrios estruturais da UEM e à utilização de uma moeda subvalorizada, que insistiu na narrativa dos trabalhadores do norte da Europa vs. os preguiçosos do sul e que empurrou vários países para resgates financeiros que tinham entre os seus principais objectivos a privatização de empresas em sectores económicos estratégicos, vem agora queixar-se da influência que a China tem sobre os países europeus em que investiu. Mais do que irónico, é ilustrativo quanto baste da falta de visão da liderança merkeliana e de todos aqueles que sofrem do que Ulrich Beck denominou por cegueira da economia, que atinge muitos economistas que, segundo Wolfgang Munchau, padecem de analfabetismo político-social.

“Todo o ser é feliz quando satisfaz o seu destino”

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Ainda me recordo do primeiro dia em que iniciei o meu percurso escolar, há 25 anos. Desde então, passei por várias escolas e universidades e foi na minha alma mater, o ISCSP, que descobri, logo nos primeiros dias de aulas da licenciatura em Relações Internacionais, o meu desígnio de vida: a dedicação ao conhecimento, à ciência, à academia. É, por isso, com um sentimento muito especial que inicio o meu primeiro ano lectivo do outro lado da secretária do Professor, numa universidade que se tem vindo a afirmar como uma referência não só a nível nacional, mas também internacional, e onde fui maravilhosamente acolhido e integrado, a Universidade da Beira Interior, situada na belíssima cidade da Covilhã. Tenho, assim, a imensa sorte de poder, finalmente, dedicar-me inteiramente a algo que, mais que uma profissão, é uma vocação. Ortega y Gasset, no início de O Que é a Filosofia?, resume bem o meu estado de espírito após as primeiras aulas que leccionei:

(…) já veremos como no ser vivo toda a necessidade essencial, que brota do próprio ser e não lhe advém de fora acidentalmente, vai acompanhada de voluptuosidade. A voluptuosidade é a cara, a facies da felicidade. E todo o ser é feliz quando satisfaz o seu destino, isto é, quando segue a encosta da sua inclinação, da sua necessidade essencial, quando se realiza, quando está a ser o que é na verdade. Por esta razão Schlegel dizia, invertendo a relação entre voluptuosidade e destino: «Para o que nos agrada temos génio». O génio, isto é, o dom superlativo de um ser para fazer alguma coisa tem sempre simultaneamente uma fisionomia de supremo prazer. Num dia que está próximo e graças a uma transbordante evidência vamo-nos ver surpreendidos e obrigados a descobrir o que agora somente parecerá uma frase: que o destino de cada homem é, ao mesmo tempo, o seu maior prazer.

Das operações russas de propaganda nas redes sociais

Asha Rangappa, “How Facebook Changed the Spy Game”:

The vast majority of counterintelligence cases I worked in the FBI involved a foreign intelligence service (FIS) conducting what we called “perception management campaigns.” Perception management, broadly defined, includes any activity that is designed to shape American opinion and policy in ways favorable to the FIS home country. Some perception management operations can involve aggressive tactics like infiltrating and spying on dissident groups (and even intimidating them), or trying to directly influence U.S. policy by targeting politicians under the guise of a legitimate lobbying group. But perception management operations also include more passive tactics like using media to spread government propaganda—and these are the most difficult for the FBI to investigate.

(…).

As the internet renders useless the FBI’s normal methods to counter foreign propaganda, the reach of these operations has increased a thousandfold. In the past, a failure to neutralize a perception management operation would at least be limited by the reach of “traditional,” i.e., paper, media which are practically constrained to a region or paying customers. But social media platforms can reach an almost limitless audience, often within days or hours, more or less for free: Russia’s Facebook ads alone reached between 23 million and 70 million viewers. Without any direct way to investigate and identify the source of the private accounts that generate this “fake news,” there’s literally nothing the FBI can do to stop a propaganda operation that can occur on such a massive scale.

This fact is not lost on the Russians. Like any country with sophisticated intelligence services, Russia has long been a careful student of U.S. freedoms, laws and the constraints of its main nemesis in the U.S., the FBI. They have always known how to exploit our “constitutional loopholes”: The difference now is that technology has transformed the legal crevice in which they used to operate into a canyon. The irony, of course, is that the rights that Americans most cherish—those of speech and press—and are now weaponized against us are the same ones Russia despises and clamps down on in its own country.

Reacções da China à saída dos EUA do Acordo de Paris

Ao contrário do que muitos pensam, a saída dos EUA do Acordo de Paris não serve os interesses da China – bem pelo contrário, como se pode constatar no mais recente número do China Leadership Monitor da Hoover Institution.

Gritar à toa

Sonho com o dia em que a diferença salarial média entre homens e mulheres se inverta em favor das mulheres e o número de mulheres em cargos políticos e públicos e de direcção no sector privado seja superior ao dos homens. Primeiro, porque, embora se trate de uma realidade em que gostaria de viver, especialmente considerando que durante a esmagadora maioria da história da humanidade as mulheres foram e continuam a ser discriminadas de formas abjectas, repulsivas e sem qualquer justificação, perceberíamos todos que nem assim se conseguiria ultrapassar falhas características da cultura de cada corpo político. Segundo, e mais importante, porque deixaríamos de assistir ao chinfrim que os guerreiros pela igualdade de género a todo o custo teimam em produzir vociferando os seus preconceitos ideológicos assentes numa concepção profundamente errada da condição humana e numa compreensão débil dos fenómenos sociais, decorrentes do racionalismo construtivista. O que não quer dizer que, entretanto, não encontrem outras causas a que possam dedicar os seus esforços. Afinal, o racionalismo construtivista talvez nunca tenha tido um solo tão fértil como as hodiernas sociedades demo-liberais onde, infelizmente, a política da cartilha ideológica se sobrepôe à política enquanto conversação e acomodação de diferentes perspectivas. Como canta Samuel Úria numa belíssima crítica à primeira, Repressão!/ Repressão!/ Grita-se à toa/ Qualquer causa é boa num refrão.

Da violência política

Niall Ferguson, “There’s more than one side to the story”:

I do not remember Biden, much less his boss, tweeting “There is only one side” after any Islamist atrocity. On the contrary, president Obama often used his considerable eloquence to make just the opposite point. In his speech following the 2012 Benghazi attacks, he even went so far as to say: “The future must not belong to those who slander the prophet of Islam,” as if there were some moral equivalence between jihadists and those with the courage to speak critically about the relationship between Islam and violence.

Last week one of the chief executives who repudiated Trump, Apple’s Tim Cook, announced a $1 million donation to the Southern Poverty Law Center. Yet that organization earlier this year branded Ayaan Hirsi Ali (full disclosure: my wife) and our friend Maajid Nawaz “anti-Muslim extremist.” That word “extremist” should be applied only to those who preach or practice political violence, and to all who do: rightists, leftists, and Islamists.

Trump blew it last week, no question. But as the worm turns against him, let us watch very carefully whom it turns to — or what it turns turn into. If Silicon Valley translates “There is only one side” into “Censor anything that the left brands ‘hate speech,’” then the worm will become a snake.

Trump é um péssimo negociador

É o que fica patente na análise de David A. Graham a duas chamadas telefónicas de Trump, uma com o presidente do México, Enrique Peña Nieto, e outra com Malcom Turnbull, Primeiro-Ministro australiano. Graham conclui assim o seu artigo na The Atlantic:

Two countries, two leaders, two approaches—yet both succeeded, for different reasons. The calls with Malcolm Turnbull and Enrique Peña Nieto are not only a valuable document of how diplomacy works; they would also set a pattern. Time and again, foreign leaders have found that Trump is hardly the hardened negotiator he claims, but is instead a pushover. If they can get into a one-on-one conversation with Trump, they can usually convince him to come around to their position. If that was true on paying for the wall and taking refugees, it stands to reason it would be true for lesser Trump priorities, too.

No Delito de Opinião

Hoje, a convite do Pedro Correia, contribuo para o Delito de Opinião com um post sobre a incapacidade crónica para debater civilizadamente de que sofrem alguns académicos que, por defeito, deveriam ser intelectualmente humildes, honestos e pluralistas e fomentadores da civilidade.

A inexperiência de Trump é péssima para os EUA e o Ocidente

Aaron David Miller e Richard Sokolsky, “Trump is a Bad Negotiator”:

Granted, international diplomacy is a lot tougher than cutting real estate deals in New York, and there’s still a lot of time left on the presidential clock to make Trump great again. But half a year into the Trump era, there’s little evidence of Donald Trump, master negotiator. Quite the opposite, in fact: In several very important areas and with some very important partners, Trump seems to be getting the short end of the proverbial stick. The president who was going to put America first and outmaneuver allies and adversaries alike seems to be getting outsmarted by both at every turn, while the United States gets nothing.

(…).

Let’s start with the president’s recent encounters with the president of Russia, a man who admittedly has confounded his fellow world leaders for nearly two decades. Apparently without any reciprocal concessions, the world’s greatest negotiator bought into Russia’s plan for Syria, where U.S. and Russian goals are in conflict; ended America’s covert program of support for the moderate Syrian opposition, then confirmed its highly classified existence on Twitter; and had an ostentatious one-on-one meeting with the Kremlin strongman at the G-20 dinner, sticking a finger in the eye of some of America’s closest allies. It’s bad enough to give Putin the global spotlight he craves while accepting Russia’s seriously flawed vision for Syria. But to do so without getting anything in return gives “the art of the deal” a whole new meaning. Trump’s failure to hold Putin accountable for Russian interference in the presidential election is the most egregious example of putting Russia’s interests first and America’s interests last, but it’s hardly the whole of the matter. There’s no other way to put it: Trump has become Putin’s poodle. If it weren’t for Congress, public opinion and the media, Trump would be giving away more of the farm on sanctions, Russian aggression in Ukraine and other issues that divide the United States and Russia. That’s not winning; it’s losing.

Da falta de significado no trabalho

Rutger Berman, “A growing number of people think their job is useless. Time to rethink the meaning of work”:

In a 2013 survey of 12,000 professionals by the Harvard Business Review, half said they felt their job had no “meaning and significance,” and an equal number were unable to relate to their company’s mission, while another poll among 230,000 employees in 142 countries showed that only 13% of workers actually like their job. A recent poll among Brits revealed that as many as 37% think they have a job that is utterly useless.

They have, what anthropologist David Graeber refers to as, “bullshit jobs”. On paper, these jobs sound fantastic. And yet there are scores of successful professionals with imposing LinkedIn profiles and impressive salaries who nevertheless go home every evening grumbling that their work serves no purpose.

Let’s get one thing clear though: I’m not talking about the sanitation workers, the teachers, and the nurses of the world. If these people were to go on strike, we’d have an instant state of emergency on our hands. No, I’m talking about the growing armies of consultants, bankers, tax advisors, managers, and others who earn their money in strategic trans-sector peer-to-peer meetings to brainstorm the value-add on co-creation in the network society. Or something to that effect.

So, will there still be enough jobs for everyone a few decades from now? Anybody who fears mass unemployment underestimates capitalism’s extraordinary ability to generate new bullshit jobs.

(…).

Our definition of work, however, is incredibly narrow. Only the work that generates money is allowed to count toward GDP. Little wonder, then, that we have organized education around feeding as many people as possible in bite-size flexible parcels into the employment establishment. Yet what happens when a growing proportion of people deemed successful by the measure of our knowledge economy say their work is pointless?

That’s one of the biggest taboos of our times. Our whole system of finding meaning could dissolve like a puff of smoke.

(…).

I believe in a future where the value of your work is not determined by the size of your paycheck, but by the amount of happiness you spread and the amount of meaning you give. I believe in a future where the point of education is not to prepare you for another useless job, but for a life well lived.

Provavelmente, o mais patético líder político contemporâneo

Durante a última campanha eleitoral nos EUA, foram surgindo muitos apoiantes e acólitos de Donald Trump que, de certa maneira, se assemelhavam aos apoiantes de Obama que acreditavam que o primeiro presidente americano negro seria uma espécie de enviado divino com a missão de resolver todos os males no planeta. Claro que o entusiasmo pueril em torno de determinados líderes políticos (numa linguagem weberiana, alguns podem ser classificados como carismáticos), assim como a diabolização de outros, fazem parte da essência das campanhas eleitorais. Passada a campanha, quando o eleito é confrontado com a realidade política da governação, muitos dos seus eleitores acabam, inevitavelmente, por ver as suas expectativas frustradas, ao passo que muitos dos seus detractores, mesmo que não o admitam, acabam por perceber que o mundo não acabou e que a vida continua. Como ninguém está imune a este tipo de emoções, uma certa dose de pessimismo é, portanto, uma saudável recomendação para quem prefere afinar pelo diapasão da temperança. Por isto mesmo, não acreditei que Trump fosse um anjo ou o diabo, preferindo aguardar para ver no que resultaria a sua presidência. Quem tem acompanhado a política americana ao longo dos últimos meses reconhecerá que talvez fosse difícil fazer pior, salvando-se, no campo da política externa, como honrosa excepção, a mensagem que enviou à Rússia e à China por via do ataque lançado contra a Síria. Mas após o polémico episódio de há uns dias, em que Trump tweetou um vídeo de si próprio a esmurrar alguém com o logo da CNN no lugar da cabeça, estou convencido de que, embora não seja um anjo nem o demónio, Trump será, provavelmente, o mais patético líder político contemporâneo, um adolescente que, para mal dos EUA e do mundo, se encontra no mais poderoso cargo político existente.

Do excepcionalismo americano

David Frum, “The Souring of American Exceptionalism”:

America’s uniqueness, even pre-Trump, was expressed as much through negative indicators as positive. It is more violent than other comparable societies, both one-on-one and in the gun massacres to which the country has become so habituated. It has worse health outcomes than comparably wealthy countries, and some of the most important of them are deteriorating further even as they improve almost everywhere else. America’s average levels of academic achievement lag those of other advanced countries. Fewer Americans vote—and in no other democracy does organized money count for so much in political life. A century ago, H.L. Mencken observed the American “national genius for corruption,” and (again pre-Trump) Transparency International’s corruption perceptions index ranks the U.S. in 18th place, behind Hong Kong, Belgium, Australia, Canada, the Netherlands, the United Kingdom, Germany—never mind first-place finishers Denmark and New Zealand.

As I said: pre-Trump. Now the United States has elected a president who seems much more aligned with—and comfortable in the company of—the rulers of Turkey, Hungary, Uzbekistan, and the Philippines than his counterparts in other highly developed countries.

That result forces a reshaping of the question of American exceptionalism.

“Why was the United States vulnerable to such a person when other democracies have done so much better?” Part of the answer is a technical one: The Electoral College, designed to protect the country from demagogues, instead elected one. But then we have to ask: How did Trump even get so far that the Electoral College entered into the matter one way or another?

Thinking about that question forces an encounter with American exceptionalism in its most somber form. If, as I believe, Donald Trump arose because of the disregard of the American political and economic elite for the troubles of so many of their fellow-citizens, it has to be asked again: How could the leaders of a democratic country imagine they could get away with such disregard?

Political Science and the 2017 UK General Election

Até ao fim de Julho podem aceder livremente a esta colecção de artigos subordinados à temática ‘Political Science and the 2017 UK General Election’. Destaco “Political Opposition and the European Union” de Peter Mair e “The Populist Zeitgeist” de Cas Mudde.

Da incapacidade crónica para assumir responsabilidades

Se considerarmos os problemas do SIRESP recentemente revelados, nomeadamente, a cláusula de exclusão de responsabilidade da empresa que gere o sistema caso este falhe aquando de situações de emergência – que terá tido a anuência de António Costa, Ministro da Administração Interna que assinou o contrato em 2006 -, o relatório de 2014 da KPMG, solicitado pelo governo de Passos Coelho, que identificava várias falhas no sistema, e, no que diz respeito em particular ao que se passou no incêndio em Pedrógão Grande, o vergonhoso jogo de vários organismos que procuram atribuir culpas uns aos outros e não se responsabilizam pelos seus próprios erros e problemas, concluímos que não só ninguém fica bem na fotografia, como estamos perante indivíduos com uma mentalidade infantil no que concerne à assunção de responsabilidades – só falta dizer, como as crianças, que “foi sem querer”.

Todos os anos Portugal é assolado por incêndios. Todos os anos os políticos se lamentam, mas pouco ou nada fazem para mudar esta situação. Desta feita, morreram 64 pessoas, muitas das quais devido a terem sido encaminhadas para uma estrada que deveria ter sido cortada. O Estado falhou naquela que é a sua principal incumbência, proteger os seus cidadãos, ninguém quer assumir responsabilidades pelas falhas e erros e o pior é que, provavelmente, no próximo ano continuaremos a ver milhares de hectares do país a arder. Tudo isto é absolutamente vergonhoso.

Lobbying em Portugal

Não sou adepto daquele estafado provincianismo que acha que o que se faz lá fora é que é bom e tem de ser importado para Portugal. Mas neste caso, basta olhar para as realidades de Bruxelas, Londres ou Washington para compreender que um regime de transparência na actividade de representação de interesses seria um saudável desenvolvimento que melhoraria a qualidade da nossa democracia. Bem, portanto, o CDS, o PS e o PSD. Já os “argumentos” de BE e PCP são de uma pobreza atroz.

Populismo, demagogia e democracia

Pierre Manent, “Populist Demagogy and the Fanaticism of the Center”:

As a term, “populism” is indisputably marked with discredit and denunciation. The populist orientation is often said to have a “passionate,” “extreme,” or “irresponsible” manner and tone. But its content, too, is never credited with the characteristics of reason, moderation, and responsibility. The term “populism” denotes an orientation, a political opinion, or certain orientations or political opinions, which are discredited and denounced. What opinions, what orientations? They can vary widely, and it is possible to distinguish them according to their basic political polarity, a populism of the Left or extreme Left, and a populism of the Right or extreme Right. It is important, however, to understand that the common substantive of populism tends to prevail over these opposing qualifiers of Left and Right. Even if this effect is not desired, it at least follows from the use of the term. Jean-Luc Mélenchon is thus effectively placed in the same boat as Marine Le Pen, which displeases him greatly. (Here, despite the axiological neutrality that ought to rule political science, I cannot help but sympathize with Jean-Luc Mélenchon.) By classifying these two political leaders under the same heading, this grouping effectively clouds the political landscape to the point of rendering it incomprehensible.

We encounter, then, the following difficulty. How is it possible that a notion which seems to have become indispensable for the understanding of political debate tends rather to make it confused and indecipherable? Does this notion indicate the new reality of those who are thus labeled, or is it not rather a product of the new political intention of those who use it? If the notion of populism can cover political orientations as distant as those of Jean-Luc Mélenchon and Marine Le Pen—if it thus has the power to prevail over the opposition between the Left and the Right, and even between the extreme Left and the extreme Right—it is because powerful forces intend to reconstruct the political landscape no longer around the opposition between the Right and the Left but between populism and . . . what? We do not know yet, but since “populism” is pejorative and implies discredit, we will say “respectable” and “accredited” politics.

These powerful forces intend to reconstruct the political landscape around the opposition between populism, which we can still describe as Right or Left, and respectable politics, which can still retain its versions of Right and Left. When I speak of the intention of these powerful forces, I do not refer to any sinister plot to give new names to things that have not changed, or to any plot to deceive good citizens. The situation has doubtless already changed enough so that the effort to pit “populism” against “respectable politics” is not merely possible in theory, but already has real purchase. The ability of the Right/Left polarity to organize and describe political life is now likely much weakened.

We can, however, already remark on the difference between how the Right/Left polarity and the populist/respectable polarity see political life. The Right/Left polarity attributes an equal legitimacy to both poles. Even if each of these halves claims full political legitimacy and doubts the legitimacy and occasionally even the simple morality of its opposing half, the system itself is based on the equal legitimacy of the two halves or the two poles, with an uncertainty or a gray zone represented by the extremes (extreme Right or extreme Left), whose democratic legitimacy is always suspect. The new mode is characterized by the unequal legitimacy of the two poles or the two halves: populism as such is tendentiously illegitimate, while “respectable” politics is tendentiously the only legitimate politics.

It seems to me that we have not sufficiently noted to what extent this new mode is actually new. The distinctive feature that the democratic and liberal order used to have as its foundation was the equal legitimacy of the majority and its opposition. The new order now imposing itself more and more upon us rests on the contrast between legitimate opinions and illegitimate opinions. The point deserves to be examined further, but it already seems clear that with this transformation, we have started to pass from an order built on confrontation between equally legitimate opinions to an order relying on confrontation between legitimate opinions and illegitimate opinions, between political orthodoxy and heresy. If this were true, then we would be in the process of departing from democracy as it has thus far been known.

O poder prejudica o cérebro

Jerry Useem, “Power Causes Brain Damage”:

Lord David Owen—a British neurologist turned parliamentarian who served as the foreign secretary before becoming a baron—recounts both Howe’s story and Clementine Churchill’s in his 2008 book, In Sickness and in Power, an inquiry into the various maladies that had affected the performance of British prime ministers and American presidents since 1900. While some suffered from strokes (Woodrow Wilson), substance abuse (Anthony Eden), or possibly bipolar disorder (Lyndon B. Johnson, Theodore Roosevelt), at least four others acquired a disorder that the medical literature doesn’t recognize but, Owen argues, should.

“Hubris syndrome,” as he and a co-author, Jonathan Davidson, defined it in a 2009 article published in Brain, “is a disorder of the possession of power, particularly power which has been associated with overwhelming success, held for a period of years and with minimal constraint on the leader.” Its 14 clinical features include: manifest contempt for others, loss of contact with reality, restless or reckless actions, and displays of incompetence. In May, the Royal Society of Medicine co-hosted a conference of the Daedalus Trust—an organization that Owen founded for the study and prevention of hubris.

I asked Owen, who admits to a healthy predisposition to hubris himself, whether anything helps keep him tethered to reality, something that other truly powerful figures might emulate. He shared a few strategies: thinking back on hubris-dispelling episodes from his past; watching documentaries about ordinary people; making a habit of reading constituents’ letters.

But I surmised that the greatest check on Owen’s hubris today might stem from his recent research endeavors. Businesses, he complained to me, had shown next to no appetite for research on hubris. Business schools were not much better. The undercurrent of frustration in his voice attested to a certain powerlessness. Whatever the salutary effect on Owen, it suggests that a malady seen too commonly in boardrooms and executive suites is unlikely to soon find a cure.